Quinta-feira, Outubro 15, 2009

Mapa - Murilo Mendes

Mais uma dica certeira da dona Helê...

"Me colaram no tempo, me puseramuma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.

Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluido,
depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregam numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.

Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem
nem o mal.

Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamentos,
não acredito em nenhuma técnica.
Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações…

Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.

Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.
Detesto os que se tapeiam,os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens “práticos”…
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.

Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito…
viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.
Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
no meu quarto modesto da praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
sempre em transformação."

Terça-feira, Outubro 06, 2009

pra não esquecer...

...
Cansado da mesma estrada
Do mesmo navio
Balanço chato de não chegar
Balanço triste, de navegar...

Às vezes encontro ex-companheiros
Me exaspero de saudades do passado
Enlouqueço de saudades do futuro...

Me esqueço um pouco, então
Só um pouco
Dessa vida de degredado
Desse caminho sem terra firme

E canto uns versos
Uma meia dúzia, apenas
Pra não esquecer o quê
E quem
Um dia foi chão
E hoje não passa de lenda...

Sexta-feira, Setembro 18, 2009

Versos serenos

Vôos amenos pelos tempos de hoje
Sem pressa, sem pesar
Sem tantos erros também
Acertos? Um pouquinho mais...

A gente vai ganhando com a experiência
Mesmo pouca...
Hoje me chamam de doutor
Venço respeito com bom humor
Vida boa, vida louca
Entre lutas e paz
Guerra e paciência...

Terça-feira, Setembro 01, 2009

Scraps vazios

Até onde dá pra seguir?
Buscando o quê, mesmo?
Correndo pra que lado?
Travando batalhas sem fim
Envolvendo-se em disputas
Desnecessárias...
Caçando problemas
Que não são meus...

Que vida é essa, enfim?
Pra que lutar?
Pelo dia seguinte
Que não parece revelar
Qualquer surpresa
Qualquer novidade???

"Histórias, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória..."
(Chalie Brown Jr.)

Terça-feira, Agosto 18, 2009

Sobre o Amor...

Talvez acabem com o Amor
Um dia
Porque o acorrentam a colunas sociais
Fofocas e seguros de
Possuir suas chaves

E mesmo quando o têm
Sob controle, na mesma perspectiva
Alguma pose sombria do passado o destrói
O derruba fácil

Mesmo antes certo
(Talvez antes, nem tanto)
Assim o levam ao chão
Assim me levam, ao chão

Mas, mesmo assim, continuo
Amando

Na esperança de ver o meu próprio Amor
Não por mim, não pelos meus
Mas pela vida, em si, infinita

Correspondido ao mesmo pé
Na mesma luta
Confiante e certo de que só poderá ser assim
Exatamente como é
Porque não nasceu
Nem sabe viver de outra forma...

Quinta-feira, Julho 30, 2009

Tarde de agosto

Vai a tarde num sopetão
Carrega o tempo comum
E começam outros,
Mais intensos
Que, apesar da calmaria
Consomem a ociosidade
dos dias normais...

O tempo passa...
Penso em pedir desculpas
Às pessoas que feri pela estrada
Mas não posso...
A distância se impõe por longo tempo
E a estrada
Bifurcada há alguns quilômetros
Não me deixa mais ver
Pra onde vai o outro vagão

Então volto pro meu mundo
Real? Nem sei...
Mas se torna meu por agora
E por muito tempo

E a brisa seca da tarde de agosto
Carrega os desejos de superfície
No meio do cerrado
No meio do deserto...
Deixando à mostra o ser mais frágil
Deixando à parte o meu corpo, o resto...

Domingo, Julho 26, 2009

Love scraps

Cansado de amores comuns
Consumido pelas promessas falsas e pelo tempo
E a distância, firme, mesmo que agora pouca
Segue em frente o Amor, fato consumado
E, por isso mesmo, castigado
Pelo mundo hostil que se expõe a frente
Pelos diários problemas de vidas comuns
Pelo extraordinários das vidas comuns...

E, de repente, o próprio percebe
Não poder ir mais além, pelo desterro
E se sente mais um, mesmo diferente
Torna-se comum, o especial Amor
Torna-se gente dentro do Panteão...