Terça-feira, Dezembro 23, 2008

Plantões emendados...

Mais uma noite de plantão... se não fosse entre um dia e outro... de plantão... tudo estaria bem.
Mas, de qualquer maneira, estou bem. Quer dizer, em se falando de Medicina... enfim...
Transito entre os fantasmas da noite, embalado pela facilidade de se mandar outro médico - no caso, eu - ao atendimento de gentes carentes e mal orientadas por telefone... ou então, sendo eu, o atendente médico, tentando controlar e contornar as sanhas mandonas dos pacientes de Brasília... complexo demais pra qualquer um entender...
Na central de telefonia, sem meu telefone pessoal, sem orkut ou msn... limitado a prender minha atenção entre meus textos - não tão fluentes, nem fluidos como antes... - e meus estudos, agora parcos, mas ainda interessados.
Fora daqui, minha vida segue se apagando, devagar. Por não saber como expor mudanças radicais no meu modus operandi. Por não saber como mostrar meu Amor da maneira mais austera possível... me percebo, então, como mais um dos mortais que perdem suas vidas como sofredores irracionais... Para perder, basta achar que se detém o controle...
Não controlo nada. Minhas próprias virtudes se vão frente à insanidade de pensamentos incompletos, de atitudes obscuras. Pior ainda, atitudes escurecidas pela minha própria falta de controle...
Vejo a sombra do espírito destruidor, mais uma vez, com sua face negra, mas claramente colérica, em minha agora frágil mente... transtornado por ciúmes, insegurança, raiva, medo e Amor, contraditoriamente. Me prontifico, de modo instintivo, a colocar tudo, toda a minha vida abaixo, visando obter um poudo de paz, para acalmar a fúria desse devastador...
Mas antes disso a racionalidade sobrevem a tudo de modo inusitado, incomum. Devaneios não se esvaem, mas antes de tomarem, novamente, forma de cólera, são amenizados por algo superior... a certeza de que não há mais nada a ser feito. Pelo menos agora...
Recosto minha cabeça no encosto da cadeira, na sala fria, durante o plantão. Tranqüilo?! Não exatamente... mas, ao menos, reconfortado...
Para perder o controle basta você achar que o possui...

Segunda-feira, Dezembro 22, 2008

Alento

"Quando nada mais houver
Eu me erguerei cantando
Saudando a vida
Com meu corpo de cavalo jovem

E numa louca corrida
Entregarei meu ser ao ser do tempo
E a minha voz à doce voz do vento
Despojado do que já não há

Solto no vazio do que ainda não veio
Minha boca cantará cantos de alívio
Pelo que se foi
Cantos de espera pelo que há de vir"

(Caio Fernando Abreu - Essencial da Década , 1970 p.144)


Excelente!!!
Valeu, Helê... lindo mesmo!!

Entrelinhas de verdade sob lendas...

O desenrolar da humanidade é sempre forrado de novidades... tenho vivido e agido dentro de situações que, quando criança - falar "pequeno" soa pejorativo ou surreal, pra mim... - se mostrariam, sob análise crua, inaplicáveis.
Imaginava não precisar ser rude, como o Lulu Santos, com habilidades pra dizer mais sim do que não...
Acreditava ser possível manter-me reto, sustentando verdades como estandartes impossíveis de se abater...
Mas hoje escrevo minha história entre cascos, batendo secos nas pedras do calçamento...
Não me imaginava fazendo um terço das coisas que faço pra manter, ou tentar manter, a conduta que considero correta...
Percebo e concluo que somos, sim, reféns do caos, pra manter a ordem. Utilizamos impropriedades, lixo e as deformidades pra manter a educação, a forma e o asseio.

Aprendi mesmo a usar os cascos. Que o diga quem tem atravessado meu caminho.

...

Um dia eu andava em uma estrada. Comigo, escuderia fiel e simples, como em todo trabalho sujo. Digno, mas sujo. Manchado de inglórios pensamentos e atitudes, cercado de infidelidades e meias-verdades... mas a vida é assim mesmo...
Estávamos no começo de mais uma noite fria de fim de ano. Depois de uma jornada de sirenes e dipironas, voltando, enfim, pra casa. Mas um dos escudeiros, o mais simples de todos, não voltaria. Já era tarde pra retornar ao lar. Sua carroça, no estaleiro, parada por apresentar os mesmos e incorrigíveis problemas de sempre. O transporte público inativado há tempos, pra não prejudicar os coches, seus donos e seus cocheiros... Penso, então, no quão mais cedo meu amigo acordou pra estar, pontualmente, nas fileiras desse dia de batalha.
E me lembro que, em momento algum, o tive reclamando seus problemas. Homens-máquina na linha de frente, mantiveram saúde e sanidade na medida do possível...
E, ao fim da jornada, minto ao meu amigo-escudeiro.
Porque conheço-o. Sei que se oferecesse carona, por achar mais do que merecida essa condução gloriosa, de chofer, em banco de couro, no meio da madrugada... sei que ele não aceitaria. E dormiria longe da família, por mais uma noite, por não ter como voltar em segurança pra casa naquele momento.
Então invento uma lenda. Tenho alguém me esperando próximo à sua casa, amigo-escudeiro. Desvio um pouco o caminho e te levo... e pelo caminho conto estórias a respeito da prenda que me espera, no linguajar simples do trabalhador braçal, no meu linguajar, sendo tão sincero quanto falso...
Por fim, cortamos os dois, satisfeitos, a noite, a bordo do negro bólido. Ambos, hoje, descansaremos, merecidamente, cada um em suas casas...

...

Hoje, caminho ao lado dos meus amigos. Muitas vezes os xingo, chamando-os por nomes impublicáveis. São meus grandes companheiros, arrimos, desabafos uns dos outros em tempos de luta; companhias em tempos de paz. E apoios em momentos de embriaguez!!
E hoje, convivo com meia dúzia de inimigos. Escolhidos a dedo, pra não desperdiçar energia com quem não mereça... e sempre os trato com a calma e o cuidado que mereceriam se fossem bebês de colo. Também, sempre, mantendo a polidez e o tom de um lorde inglês... que não sou...
Ainda bem. Pois assim me permito abraçar e beijar meus amigos quando me dá na telha (e quando me permite o protocolo... ou não!!)
Ainda bem mesmo... pois assim me permito atacar com respostas medidas... ou sobremedidas... às agressões dispensadas a mim, pelos meus inimigos...